"F1 The Academy": entre sensibilidade e fuga da real discussão sobre inclusão
- Giovanna Pavan

- 10 de nov. de 2025
- 5 min de leitura
F1 The Academy mostra cotidiano da categoria com sensibilidade, mas evita discutir limite factual da inclusão feminina no automobilismo

A série documental F1 The Academy, lançada pela Netflix em 2025, acompanha a temporada 2024 da F1 Academy, categoria exclusivamente feminina nos moldes de Fórmula 4 criada pela Fórmula 1. Produzida pela Hello Sunshine, empresa de Reese Witherspoon, e com Susie Wolff, ex-piloto e ex-chefe de equipe na Fórmula E, como produtora executiva, a série tem como objetivo apresentar o dia a dia das jovens pilotos que competem em finais de semana de Grandes Prêmios, em circuitos como Silverstone, Monza e Yas Marina.
A categoria F1 Academy surgiu em 2023 como uma iniciativa da Fórmula 1 para ampliar a participação feminina no automobilismo de elite. Também liderada Susie Wolff, a categoria foi estruturada com o objetivo de formar e desenvolver jovens pilotos mulheres, oferecendo suporte técnico, visibilidade e integração com escuderias da F1 principal.
A F1 Academy é composta por equipes como ART Grand Prix, MP Motorsport e Prema Racing, que funcionam como incubadoras de talentos. A série mostra como essas escuderias operam com recursos limitados, mas com ambição ilimitada. Há tensão entre cooperação e competição, especialmente nas decisões de equipe que afetam diretamente o desempenho das pilotos.
Com sete episódios, a produção adota uma abordagem intimista, parecida com Drive To Survive, mas aqui, focando nas experiências pessoais e profissionais de 15 pilotos apoiadas por equipes da Fórmula 1.

Entre algumas das pilotos da temporada, a britânica Abbi Pulling, da Rodin Motorsport, se destaca pela consistência e técnica, sendo uma das mais competitivas da temporada. Ela possui sete pódios na F1 Academy e corre desde 2018. Sua ligação com a Alpine e seu desempenho constante são bem explorados. A filipina Bianca Bustamante, da ART Grand Prix, representando a McLaren, aparece como uma figura carismática, lidando com altos e baixos emocionais e técnicos, sendo muito ligada à mídia.
Hamda Al Qubaisi, dos Emirados Árabes Unidos, da MB Motorsport, representando a Red Bull Racing, enfrenta o desafio de voltar após uma lesão, enquanto sua irmã Amna, também representando a RB, lida com as consequências de um acidente que afeta sua confiança no esporte à motor. As duas competem, atualmente, na Ligier European Series.
Lia Block, dos Estados Unidos, da ART Grand Prix, representando a Williams Racing, tenta construir sua própria trajetória apesar da forte associação com o legado de seu pai, Ken Block. Há dois anos, ela venceu a temporada da American Rally Association na categoria Open Two-Wheel-Drive, tornando-se a campeã mais jovem da história da série aos 16 anos.
Já a francesa Doriane Pin, da Prema Racing, representando a Mercedes, é retratada como extremamente disciplinada e ambiciosa, buscando superar seu título de vice-campeã da temporada passada. Além delas, Chloe Chambers, britânica, da Campos Racing, representando a Haas, demonstra maturidade ao lidar com penalizações e contratempos, sendo a piloto mais nova a competir na temporada de 2023.
A série mostra o esforço das pilotos para se destacar em um ambiente competitivo e historicamente masculino, mas evita discutir com profundidade os obstáculos que ainda existem para que mulheres cheguem à Fórmula 3, Fórmula 2 ou Fórmula 1. A presença das equipes da F1 como apoiadoras é destacada, mas não há garantias reais de progressão. A série também não aborda os critérios de seleção para categorias superiores, nem os desafios financeiros que muitas enfrentam. Em mais de 70 anos de Fórmula 1, apenas cinco mulheres participaram de corridas oficiais, e esse dado não é discutido com clareza.
A ausência de entrevistas com dirigentes da Fórmula 1, como Toto Wolff ou Stefano Domenicali, limita o alcance da discussão sobre inclusão. A série opta por uma narrativa emocional e inspiradora, que valoriza o esforço individual das pilotos, mas não questiona diretamente as estruturas que mantêm o esporte predominantemente masculino.

Indo mais a fundo na problemática da inclusão, a série não suaviza o sexismo institucional. Os bastidores revelam escuderias relutantes, chefes de equipe céticos e patrocinadores que ainda tratam a presença feminina como exceção. A elite da F1, marcada por nomes como Ferrari, Mercedes e Red Bull, aparece como muralha simbólica a ser transposta. O contraste entre os paddocks luxuosos e os boxes improvisados da F1 Academy é visualmente gritante e proposital.
Diante dos episódios, a montagem alterna entre planos fechados nos rostos tensos das pilotos e tomadas aéreas das pistas, criando um ritmo que lembra thrillers esportivos. A trilha sonora, pontuada por sintetizadores e batidas pulsantes deixa essas transições ainda mais cheias de vida. Apesar de não possuir discussões claras sobre as mulheres no esporte à motor, frases empoderadas como a de Susie Wolff, “We’re not a moment, we’re a movement” (não somos um momento, somos um movimento), funcionam como arco dramático da temporada, o que traz empoderamento, mas não dá abertura à críticas diretas.
As pilotos são retratadas com profundidade rara: não como heroínas idealizadas, mas como atletas complexas, vulneráveis e determinadas. Há espaço para os dilemas pessoais, as pressões familiares e os conflitos internos. A série destaca cada piloto com estilo distinto, focando em trajetórias marcadas por superação. A câmera acompanha desde os treinos exaustivos até os momentos de introspecção, criando empatia sem cair em sentimentalismo.
Tecnicamente, o documentário brilha ao mostrar a engenharia por trás dos carros, as estratégias de corrida e os dados telemétricos. A edição intercala gráficos dinâmicos com imagens reais, explicando conceitos como downforce, undercut e gerenciamento de pneus sem didatismo excessivo. A série também revela o papel dos engenheiros, estrategistas e mecânicos, muitos deles mulheres, ampliando o escopo da representatividade.

F1 The Academy é uma produção bem desenvolvida, com vieses de documentário expositivo e participativo, que contribui para dar visibilidade ao talento feminino no automobilismo. No entanto, ao evitar temas mais delicados e estruturais, acaba oferecendo uma visão parcial da realidade enfrentada por essas atletas e trazendo a impressão de que falta uma parte muito importante da realidade: nem sempre se houve espaço para as mulheres no automobilismo e agora que há, isso precisa ser reforçado não como uma concessão pontual, mas como parte de uma reestruturação profunda que reconheça o histórico de exclusão e promova mudanças duradouras nas práticas, nos discursos e nas instituições que sustentam o esporte. É uma série que informa e te prende com as emoções vividas pelas pilotos, mas que poderia ir além na análise das barreiras que ainda existem para a inclusão plena das mulheres na elite do esporte.




Comentários