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O legado de Ayrton Senna




Há trinta anos, o Brasil perdia um dos seus maiores nomes no esporte, o piloto, o tricampeão, o rei da chuva, Ayrton Senna da Silva. Inegável que o legado de Senna permanece vivo mesmo depois dessas três décadas, seja nas curvas de Interlagos, nas menções de pilotos que o citam como inspiração ou nas ações do instituto que recebe seu nome. Mas antes de entender o que é legado, o que Ayrton Senna significa ainda em 2024, é preciso entender o que era Ayrton Senna há 30 anos, e antes disso também. 


A história de Senna começa em março de 1960. No dia 21, na cidade de São Paulo, nasceu o pequeno Ayrton. Pouco tempo depois, aos 4 anos de idade, ele ganhou seu primeiro kart, feito por seu pai, Milton Teodoro. As competições vieram mais tarde, quando, aos 13 anos, ele disputou uma corrida em Campinas. Na época, ainda não era o tricampeão que conheceríamos mais tarde, não era o Senna, nem o rei da chuva, muito menos de Mônaco, era o Beco ali.


No livro “Ayrton Senna: uma lenda a toda velocidade”, é feita uma tentativa sem sucesso completo de rastrear a origem do apelido. “A família tinha outro nome para ele: Beco. E aqui há uma história. Ele foi primeiro apelidado de Caneco, mas ninguém na família se lembra porque ele ganhou esse apelido. ‘É um mistério’, dizem eles. Quando eram pequenos, Ayrton e Viviane [irmã de Ayrton] brincavam muito com uma prima que não conseguia dizer ‘Caneco’ direito, e encurtou para ‘Beco’. O apelido pegou”. Ayrton, Caneco, Beco. Simples assim.


Antes de se tornar o Ayrton Senna do Brasil, ele já era o irmão de Viviane, filho de Milton e Neide, o Beco. Com o crescimento de sua carreira, Senna passou a alcançar novos espaços, novas pessoas, e os elogios chegavam cada vez mais longe. Ayrton foi rumo a novas conquistas para sua carreira, foi correr lá fora. Mas, lógico, sem esquecer de onde veio, e sem deixar de ser Beco.


Depois de vencer campeonatos de kart na América do Sul, o piloto foi correr na Ásia, na Europa, e em 1981 estreou na Fórmula Ford 1600, da qual foi campeão, depois, correu na Fórmula Ford 2000, da qual também foi campeão. Em 1982, Senna disputou pela primeira vez uma corrida de Fórmula 3 britânica, categoria da qual foi campeão no ano seguinte. Com tamanho desempenho na pista, não demorou para Senna chegar à Fórmula 1.


Em 1984, Senna disputou sua primeira corrida na Fórmula 1, aqui no Brasil, no agora inexistente autódromo de Jacarepaguá. Não foi uma boa corrida, o motor falhou e Senna precisou recolher na oitava volta. De qualquer forma, muitas coisas boas ainda viriam pela frente, como os campeonatos de 1988, 1990 e 1991, conquistados com a McLaren. Entre 1984 e 1994, Senna conquistou 41 vitórias, 65 pole positions e 80 pódios - tudo isso em uma época em que a Fórmula 1 tinha 16 corridas por temporada, não mais de 20, como acontece atualmente.


Os números são impressionantes e por si só já mostram a excelência que Senna teve nas pistas, mas não foi só isso que o tornou o Ayrton Senna do Brasil. Mais que estar no topo, Senna levou a bandeira do Brasil com ele, dizia e repetia de onde veio, fez bonito na frente do seu próprio público ao vencer apenas com a sexta marcha em Interlagos, criou o Senninha - personagem infantil de Ayrton, e participou ativamente de programas que incentivavam e promoviam educação e esporte aos jovens no Brasil. Dentro e fora das pistas, Senna era querido pelos brasileiros, e o afeto era de mão dupla.


Em maio de 1994, um acidente tirou a vida de Ayrton, um acidente que até hoje parece não ter sido completamente compreendido. Adrian Newey, um dos responsáveis pelo projeto do carro da Williams que Senna guiava quando veio a óbito, conta em seu livro “How to build a car” (em português, “Como construir um carro”) que viu e reviu o acidente incontáveis vezes, mesmo anos depois dele, em busca por respostas. Ele não é o único.


Em novembro de 1994, foi criado o Instituto Ayrton Senna, guiado por Viviane Senna, irmã de Ayrton. O instituto busca continuar a apoiar a causa da educação, já que essa era a vontade de Senna. Nos relatórios disponibilizados pela organização, até 2022, pelo menos metade da verba utilizada para apoiar a educação vem de royalties da imagem de Ayrton Senna, fora as doações feitas por pessoas físicas e jurídicas.


Naquele domingo de maio, o esporte perdeu um campeão, a família de Senna perdeu o Beco, o Brasil perdeu Ayrton. Ainda assim, é evidente que nenhum desses o esqueceu. Existe um legado. Uma das definições do dicionário Michaelis para “legado” é: “aquilo que se passa de uma geração a outra, que se transmite à posteridade”, e é bem aqui que se encaixa a figura de Ayrton Senna ainda em 2024.


Eu nunca vi Ayrton numa corrida ao vivo, e, quando cheguei, ele já havia ido. Ainda assim, as histórias chegam até mim, e essa experiência não é única, já que seu nome nunca parou de ser dito. Hoje mesmo, minha tia me dizia exatamente como foi ver a cena final de Senna nas pistas - ela também acreditou que ele estivesse bem quando viu aquele capacete mexer, minha avó guardou os livros que carregavam a foto do piloto na capa, e toda vez que chego em Interlagos ele está por lá - na parede do prédio da CBA, no busto que fica no setor A, na voz do povo que não fica um GP sequer sem gritar: “olê, olê, olê, olá, Senna, Senna”. 


Por isso, não existe exagero em dizer “Senna Sempre”, ainda que ele não esteja mais aqui. As causas que ele apoiava continuam sendo alimentadas pelo Instituto que recebe seu nome, o grid nunca fica sem pilotos que o mencionem como inspiração, seu público continua o aplaudindo ao redor de um autódromo que há muito tempo não o vê. Impossível resumir tanto a um trágico fim, sendo assim, o legado continua. Ayrton Senna do Brasil, Beco, ou simplesmente Senna, independentemente do nome, a temporalidade é a mesma. Sempre.


 
 
 

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